Golpadas, sorte e tu também
Enquanto a luz dormir
Vem cá onde, eu vou também
A tua roupa, eu sei despir
Rumo ao norte e prende alguém
Eu toco sempre, nesse insistir
Vento ao sul e mergulho - além
Entro na dança que o sexo elogia
E fazes o meu terceiro ser voar
Quero ter te sempre, Filologia
Perto do soneto desse olhar
Rumo ao estilo dessa Fisiologia
Descanso apenas para voltar
Para dentro dessa tua antropofagia
Rodrigo Camelo
sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
My all time favourite... Rock Drummers
segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
O preguiçoso das palavras

O poeta é …
O preguiçoso das palavras
Aquele que sem medo
Mente e ri à verdade
Ousado desrespeito esse
Por um João Cabral sem memória.
Que nas voltas mil de anil
Dormiu revirado e acena.
Logro desses fins.
Vejo me errado na cena,
Em filmes que não sei contar
E é pelo sinal, dele, que temo.
Ó errante Pessoa!
Quero ver a luz, nessa escuridão.
Quero ver-te nela e a desenhar
O poço fundo a transbordar
Um desses - de ti!
Em que te multiplicas
E sabes que só precisas de adormecer
Os outros que, por vezes, acendem.
Despe a pele completa,
Ossos e músculos até…
Deixas alguns órgãos
E fazes de conta que és.
Ficou lá em cima a luz
Na quarta estancia te vejo.
Já não brilha o pó do céu,
De um Camões que viu o mérito.
Sabem…
Dois génios, se entendem
Suas mentes comunicam
Como dois satélites num passo
Para o espaço de antena.
Rodrigo Camelo
sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
terça-feira, 1 de janeiro de 2008
Manuela Azevedo e o medley da nossa infância.
Na grande noite do “Diz que é uma espécie de Reveillon”, além da graça natural de Ricardo Araújo Pereira e o “determinante” Zé-Diogo Quintela, algo mais surgiu num transbordante Pavilhão Atlântico, que nos encheu de força, magia, intelecto e saudosismo. Estou a falar na destacadíssima presença dos Clã e de Manuela Azevedo, em particular. Eu arrisco dizer que, no momento musical mais bem conseguido da noite, esteve aquela que pode muito bem ser a melhor banda de rock da actualidade em Portugal.
Os Clã entraram em palco para apresentar um medley de séries infantis dos anos 80, que marcaram profundamente o imaginário de uma geração que hoje se encontra perto dos 30 anos. A exacta geração dos Gatos. Desde Verão Azul a Dartacão, passando pela abelha mais famosa do mundo, só ficando mesmo a faltar o já “épico” - Tom Sawyer.
Queria contudo destacar a presença, sempre irreverente (perceba-se no óptimo sentido do termo) de Manuela Azevedo. Esta advogada de profissão, formada em Coimbra, que quis o “destino” – se tornasse música. Li algures, que Manuela Azevedo é e sempre foi bastante tímida, mas parece mais, quando se encontra num palco a cantar, tudo o resto parece girar em seu torno. É uma daquelas mulheres que chega e ilumina um palco. De onde vem tanta energia? E tão inteligente, ao serviço do que procura transmitir?
Manuela Azevedo que sendo uma grande cantora é e permitam-me a expressão, um animal de palco. Uma das figuras femininas mais interessantes da sua geração. A forma como nos deslumbra é, toda ela, natural. É como se não pudesse evitar. E sem artifícios na linguagem corporal, porque as pequenas imperfeições que trás no seu mundo, são todas elas, de outro mundo. Manuela Azevedo está tão longe das “divas” de bustos gelatinosos, como a Terra da Lua. Porque é uma mulher naturalmente linda.
Por: Tiago Pereira da Silva
segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
Ultimatum:Álvaro de Campos - Novembro de 1917

Publicação original de Ultimatum
Mandado de despejo aos mandarins da Europa! Fora.
Fora tu, Anatole-France, Epicuro de farmacopeia-homeopática, ténia-Jaurès do Ancien-Régime, salada de Renan-Flaubert em louça do século dezassete, falsificada!
Fora tu, Maurice-Barrès, feminista da Acção, Chateaubriand de paredes nuas, alcoviteiro de palco da pátria de cartaz, bolor da Lorena, algibebe dos mortos dos outros, vestindo do seu comércio!
Fora tu, Bourget das almas, lamparineiro das partículas alheias, psicólogo de tampa de brasão, reles snob plebeu, sublinhando a régua de lascas os mandamentos da lei da Igreja!
Fora tu, mercadoria Kipling, homem-prático do verso, imperialista das sucatas, épico para Majuba e Colenso, Empire-Day do calão das fardas, tramp-steamer da baixa imortalidade!
Fora! Fora!
Fora tu, George-Bernard-Shaw, vegetariano do paradoxo, charlatão da sinceridade, tumor frio do ibsenismo, arranjista da intelectualidade inesperada, Kilkenny-Cat de ti próprio, Irish-Melody calvinista com letra da Origem-das-Espécies!
Fora tu, H. G. Wells, ideativo de gesso, saca-rolhas de papelão para a garrafa da Complexidade!
Fora tu, G. K. Chesterton, cristianismo para uso de prestidigitadores, barril de cerveja ao pé do altar, adiposidade da dialéctica cockney com o horror ao sabão influindo na limpeza dos raciocínios!
Fora tu, Yeats da céltica-bruma à roda de poste sem indicações, saco de podres que veio à praia do naufrágio do simbolismo inglês!
Fora! Fora!
Fora tu, Rapagnetta-Annunzio, banalidade em caracteres gregos, «D. Juan em Pathmos» (solo de trombone)!
E tu, Maeterlinck, fogão do Mistério apagado!
E tu Loti, sopa salgada fria!
E finalmente tu, Rostand-tand-tand-tand-tand-tand-tand-tand!
Fora! Fora! Fora!
E se houver outros que faltem, procurem-nos por aí pra um canto!
Tirem isso tudo da minha frente!
Fora com isso tudo! Fora!
Ai! que fazes tu na celebridade, Guilherme-Segundo da Alemanha, canhoto maneta do braço esquerdo, Bismarck sem tampa a estorvar o lume?!
Quem és tu, tu da juba socialista, David-Lloyd-George, bobo de barrete frígio feito de Union Jacks?!
E tu, Venizelos, fatia de Péricles com manteiga, caída no chão de manteiga para baixo?
E tu, qualquer outro, todos os outros, açorda Briand-Dato. Boselli da incompetência ante os factos todos os estadistas pão-de-guerra que datam de muito antes da guerra! Todos! todos! todos! Lixo, cisco, choldra provinciana, safardanagem intelectual!
E todos os chefes de estado, incompetentes ao léu, barris de lixo virados para baixo à porta da Insuficiência da Época!
Tirem isso tudo da minha frente!
Arranjem feixes de palha e ponham-nos a fingir gente que seja outra!
Tudo daqui para fora! Tudo daqui para fora!
Ultimatum a eles todos, e a todos os outros que sejam como eles todos!
Senão querem sair, fiquem e lavem-se.
Falência geral de tudo por causa de todos!
Falência geral de todos por causa de tudo!
Falência dos povos e dos destinos — falência total!
Desfile das nações para o meu Desprezo!
Tu, ambição italiana, cão de colo chamado César!
Tu, «esforço francês», galo depenado com a pele pintada de penas! (Não lhe dêem muita corda senão parte-se!)
Tu, organização britânica, com Kitchener no fundo do mar mesmo desde o princípio da guerra!
(It 's a long, long way to Tipperary and a jolly sight longer way to Berlin!)
Tu, cultura alemã, Esparta podre com azeite de cristismo e vinagre de nietzschização, colmeia de lata, transbordamento imperialóide de servilismo engatado!
Tu, Áustria-súbdita, mistura de sub-raças, batente de porta tipo K!
Tu, Von Bélgica, heróica à força, limpa a mão à parede que foste!
Tu, escravatura russa, Europa de malaios, libertação de mola desoprimida porque se partiu!
Tu, «imperialismo» espanhol, salero em política, com toureiros de sambenito nas almas ao voltar da esquina e qualidades guerreiras enterradas em Marrocos!
Tu, Estados Unidos da América, síntese-bastardia da baixa-Europa, alho da açorda transatlântica nasal do modernismo inestético!
E tu, Portugal-centavos, resto da Monarquia a apodrecer República, extrema-unção-enxovalho da Desgraça, colaboração artificial na guerra com vergonhas naturais em África!
E tu, Brasil, «república irmã», blague de Pedro-Álvares-Cabral, que nem te queria descobrir!
Ponham-me um pano por cima de tudo isso!
Fechem-me isso à chave e deitem a chave fora!
Onde estão os antigos, as forças, os homens, os guias, os guardas?
Vão aos cemitérios, que hoje são só nomes nas lápides!
Agora a filosofia é o ter morrido Fouillée!
Agora a arte é o ter ficado Rodin!
Agora a literatura é Barrès significar!
Agora a crítica é haver bestas que não chamam besta ao Bourget!
Agora a política é a degeneração gordurosa da organização da incompetência!
Agora a religião é o catolicismo militante dos taberneiros da fé, o entusiasmo cozinha-francesa dos Maurras de razão-descascada, é a espectaculite dos pragmatistas cristãos, dos intuicionistas católicos, dos ritualistas nirvânicos, angariadores de anúncios para Deus!
Agora é a guerra, jogo do empurra do lado de cá e jogo de porta do lado de lá!
Sufoco de ter só isto à minha volta!
Deixem-me respirar!
Abram todas as janelas!
Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo!
domingo, 30 de dezembro de 2007
Génios da Pintura: Cândido Portinari



Talvez o mais importante pintor Brasileiro de todos os tempos, Portinari pintou a realidade de meados do século XX que o envolvia, a dos despossuídos, bestializados, sem chão e sem tecto. Integrando-se tal como os três grandes pintores de murais mexicanos (Rivera, Siqueiros e Orozco) na vanguarda do que viria a ser chamado de corrente Neo-realista, que emergiu em simultâneo em Portugal e Brasil nas suas diversas manifestações (literatura, exemplos disso mesmo são Alves Redol e Manuel da Fonseca; Pintura e Cinema) com um padrão identitário marcadamente da esquerda marxista. O Neo-realismo existiu porque o fascismo era uma evidência.
Confesso que sou um apaixonado do quadro "Os Retirantes" de Portinari de 1944.
Por: Tiago Pereira da Silva
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