sábado, 27 de Outubro de 2007

Gilberto Gil - Refavela (1977)

Prólogo Inicial:
Refavela, como Refazenda um signo poético
Refavela, arte sob trópicos de Câncer e de Capricórnio.
Refavela, vila / abrigo das migrações forçadas pela caravela.
Refavela, como Luís Melodia
Etnias em rotação na velocidade da cidade/nação.
Não o jeca mas o Zeca total.
Refavela, aldeia de cantores, músicos e dançarinos pretos, brancos e mestiços.
O povo chocolate e mel.
Refavela, a franqueza do poeta; o que ele revela, o que ele fala, o que ele vê.


Por: Tiago Pereira da Silva

“Iaiá, Kiriê, Kiriê, iaiá…A refavela, revela aquela, que desce o morro e vem transar, O ambiente, Efervescente, de uma cidade a cintilar” … Aos primeiros acordes de uma linguagem musical pejada, de uma outra, recorrente de um português genuinamente Afro-Brasileiro, desse quotidiano pobre e paradoxalmente - feliz, apercebemo-nos de estarmos na presença de algo completamente diferente no panorama musical do Brasil. É como se Gilberto Gil tivesse feito (“apenas”), até esse afortunado ano de 1977, discos preparatórios para a sua obra-prima absoluta. Bem sei que não poderemos esquecer, o seu magistral trabalho em Refazenda de 1975, nem tão pouco ignorar, muito pelo contrário, a era Tropicalista e subsequente, mas em Refavela, a parada é alta mesmo.

O álbum terá começado a germinar no final do ano de 1976, quando Gil e Caetano foram convidados para participar no 2º FESTAC – Festival Mundial de Arte e Cultura Negra – que teve lugar em Janeiro de 1977 em Lagos na Nigéria. Gil, entusiasmadíssimo, reuniu uma super banda para a ocasião. “Refavela” começaria por isso, em seu estado embrionário. O peso da sonoridade e instrumentalização em “Refavela” não são de todo, mais uma incursão de um músico Brasileiro na descoberta de suas raízes Africanas. De modo nenhum. Este é o disco de um músico, que se sente com um pé em cada continente.

Já no final do tema-título, quando Gilberto Gil vai numa direcção musical e o Background vocal, noutra, alcançamos definitivamente, o conceito absoluto de melodia estética. Eu nunca ouvi um coro assim. O Disco tinha apenas começado. Seguem-se pérolas como “Aqui e Agora”, “No norte da Saudade”, sua versão muito pessoal de “Samba do Avião” e as incríveis - “Balafon” e “Patuscada de Gandhi” as mais africanas do álbum.

Escolhi escrever sobre “Sandra” - a faixa seis do disco e uma das minhas músicas preferidas de Gil. No ano da génese do álbum – 1976, Gilberto Gil fora preso em Florianópolis, aquando da digressão dos “Doces Bárbaros”, por posse de maconha. Sandra, sua mulher na época, aparece quase omnipresente na canção. Escrita parcialmente no sanatório onde Gil foi internado, por ordem da justiça brasileira, as enfermeiras do sanatório, aqui, transformadas em personagens, vão se cruzando na canção, como que princesas de sonho esquizofrénico. Se o compasso é fortemente marcado pela batida do violão de Gil, o baixo de Moacyr de Albuquerque (um dos melhores da época), introduz e induz pequenas revelações em “Sandra”. O solo de Sax e o piano de Cidinho, revelam a sonoridade dos afrorismos da época, ou não fosse ela, a do funk e dos movimentos Black Rio. Já para não falar da bateria de um Sr. Chamado Paulinho Braga, baterista de eleição de Elis Regina, que Tom Jobim reconheceu, como um dos melhores do mundo do seu tempo. Encontramos também o coro de Ronaldo Boys e isso é, sem palavras.

Já algumas vezes reconhecida, não as suficientes, nunca é demais enobrecer o trabalho magistral da escrita de Gilberto Gil. Com elevadíssimos níveis de suscitação poética. Talvez, não ao nível dos dois mestres da escrita de sua geração - Caetano e Chico, como o próprio deve reconhecer sem enigma. Mas importa sublinhar aquilo em que Gil é, ou pelo menos foi, mestre. E este eterno menino negro de olhos curiosos, além de transpirar música por todos os poros, joga muitíssimo bem com as vastíssimas possibilidades desta nossa língua. Formando pontes fonéticas de alto teor linguístico e só para citar alguns exemplos em Refavela. O já, anteriormente, descrito: “A refavela, revela aquela”; “Entre a favela-inferno e o céu” (…) “De um povo chocolate-e-mel”. Ou, “Do samba duro de marfim, Marfim da costa, de uma Nigéria”, fazendo mais uma alusão perfeita à região da Costa do Marfim.
Continua…

PS – Especialmente… para quem me deu a conhecer este prodigioso disco, numa das mais gratas lembranças recebidas.

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